Ator e escritor Lázaro Ramos fala a alunos da Escola Municipal de Fazenda Coutos

12 de jul de 2019 - Jornalismo

Uma oportunidade de estar perto de um ídolo para refletir sobre identidade, sonhos e realizações. Assim foi a tarde da segunda-feira (8) para os alunos do oitavo e novo anos, bem como da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da Escola Municipal de Fazenda Coutos, localizada no final de linha do bairro (GRE Subúrbio I). Na ocasião, os estudantes receberam a visita do escritor, diretor e ator Lázaro Ramos, que fez questão de bater um papo literário sobre o livro “Na minha pele”, lançado pela Companhia das Letras, em 2017, no qual Ramos revê a própria carreira, abordando temas como discriminação e formação da própria identidade.

Lázaro Ramos começou a conversa agradecendo e rememorando o período que estudou em escola pública, em Salvador. “Entrando aqui, vocês me fizeram lembrar de como agente ficava agitado quando acontecia alguma coisa diferente no colégio e eu sei que essa agitação de vocês é por um bom motivo: curiosidade, coisas ligadas ao livro, perguntas que querem fazer. Isso me deixa muito contente”, considerou.

Durante uma hora de bate papo, o artista, que é de São Francisco do Conde, falou sobre a inspiração para escrever o livro, resumido por ele como uma tentativa de explicar o que viveu. “Muitas dessas coisas são ligadas à minha família, ao bairro que morei, o Garcia, mas principalmente para falar sobre as dúvidas que eu tinha. E sempre tive muitas. Eu me perguntava o tempo inteiro se o jeito que me vestia estava certo, se o cabelo que eu gostava estava certo, se o meu gosto musical estava certo, sem saber qual a profissão eu seguiria. Durante muito tempo eu tive essas dúvidas, principalmente quando minha mãe adoeceu e eu tive que trabalhar muito cedo para ajudar a colocar dinheiro em casa”, contou.

O artista relatou ainda que foi no momento em que com a morte da mãe ele se viu mais perdido. “Eu fiquei atônito. Mas comecei a ouvir mais as pessoas e fui encontrando o meu caminho. Às vezes, ficamos muito sozinhos com nossas dúvidas, sem ter com quem conversar, seja devido ao preconceito, por sermos de família pobre, e esse livro visa mostrar essa realidade e incentivar que as pessoas conversem mais sobre o que sentem. Sou feliz por conseguir fazer isso através das artes”, enfatizou.

Lázaro Ramos também fez referência à escola pública na qual estudou, destacando que foi um espaço onde encontrou acolhimento. “Uma certa vez, quando conciliar trabalho e estudos já estava quase impossível, sem falar com ninguém, eu pensei em desistir da sala de aula. Foi aí que uma professora chama Idalina, simplesmente me olhou e disse: não faça isso que está pensando. Por isso, só posso me sentir abençoado por encontrar esses anjos no caminho e conseguir escutá-los”, recordou.

Questionado sobre o sentimento de falar sobre sua história para alunos da rede municipal, o ator lembrou que sempre escreveu, mas tinha medo de mostrar o resultado para outras pessoas, por não saber se tinha valor. “Quando lancei o “Na Minha Pele”, já tinha publicado três livros infantis à base de muito esforço, além de três peças de teatro, eu ainda não tinha sido reconhecido como escritor. De repente, quando chego neste ambiente e vejo o tanto de gente que está gostando, elogiando, comentando, incentivando, eu acho que é uma benção. Então, mesmo que a gente não seja perfeito nas coisas que faz, a gente consegue mostrar pra alguém que dar uma palavra de incentivo ou um conselho pode importar muito. Na minha adolescência, não ouvi isso de ninguém. Por isso, fiquei muitos anos pra conseguir fazer uma coisa que eu já sonhava, que era falar do meu mundo particular, que eu descobri ter valor já tarde. Na educação, a principal contribuição é fazer as pessoas conversarem sobre suas dores, não como uma grande verdade, mas para que consigam encontrar soluções e seguir seus caminhos”, detalhou.

Há três meses na direção da unidade de ensino, o professor André Magno explica que a inda de Lázaro Ramos se deu a partir da própria produção do artista. “Para nós é um grande presente pois amplia os debates sobre questões de cunho racial e enfrentamento, o que sempre é de grande valia para nossos alunos e toda a comunidade escolar”, enfatiza o gestor. Ao final do encontro, o artista ainda cantou a música “Vem meu amor”, que fez parte da trilha sonora do filme “Ó Pai Ó”, tirou fotos e deu autógrafos a alunos e funcionários da instituição.

O encontro com o autor foi um momento especial para os alunos. “Foi uma surpresa. Gosto muito dele e pensei muito nas coisas que ele falou sobre a vida, sobre superação e sobre a importância de falar sobre o que a gente sente”, disse a aluna Evelyn Bispo da Silva, 13 anos, do 7°ano .

Já a aluna Emily Lima dos Santos, 16 anos, 7°ano, destacou o trabalho de Lázaro Ramos como ator. “Adoro ver ele nas novelas e ter ele aqui na escola, falando sobre o livro, é a prova de que podemos chegar onde quisermos”.

Para Gisele Santos Matos, 15 anos, aluna do 7° ano, os relatos do autor levaram inspiração. “Quero ser médica e ouvir a história de luta dele me faz acreditar que eu posso chegar lá, independentemente se eu sou favela ou orla”.