Na EM Alexandre Leal Costa, educandos da EJA tecem saberes no projeto Colcha de Retalhos

21 de set de 2023 - Jornalismo

Aos 71 anos, Solange Maria de Souza Pinto é uma das alunas mais aplicadas das turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA) da Escola Municipal Alexandre Leal Costa, situada em Nazaré. “Ela vem todos os dias, não falta nunca”, diz a vice-diretora Patrícia de Sousa Montes. Solange confirma orgulhosa: “Nem quando chove”. Para ela, a escola é a realização de um sonho, um espaço para estudar e conviver com colegas e professores.

Quando era criança, Solange estudou até o 6º ano (na época, 5ª série) no distrito de Humildes, em Feira de Santana, onde morava. Ela conta que a interrupção dos estudos foi em razão da necessidade de trabalhar – principal causa do abandono escolar, conforme dados divulgados em junho deste ano pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em Salvador, ela trabalhou como cuidadora de idosos. “E agora consegui voltar a estudar”, diz, animada. E mostra o trabalho de pintura em tecido que fez para a composição artística “Colcha de Retalhos”.

Proposta no âmbito do projeto FestEJA, desenvolvido há dez anos pela escola, a Colcha de Retalhos é um trabalho coletivo que envolve os mais de 60 alunos da EJA. “É uma experiência muito rica e diferente, de grande sensibilidade, e que envolve diferentes saberes”, afirma Alexsandro Palma, coordenador pedagógico da Gerência Regional de Educação (GRE) Centro.

Desde o início de setembro, os alunos têm feito produções para a Colcha de Retalhos. Cada um recebe um pedaço de tecido, no qual aplicam as técnicas que aprenderam, compondo uma arte inspirada nos trabalhos de artistas estudados em sala de aula, a exemplo de Picasso. “Não se trata de uma releitura, mas sim de uma inspiração. O que eles transformam em arte é a emoção, a vivência, a essência de cada um. Um tema que tenha significado para eles”, explica a coordenadora Flávia Lima, que ao lado da professora Andrea Barros, conduz as atividades.

“Eu me senti um verdadeiro artista”, declara o educando Walter Martins Ribeiro Junior, 20, sobre a aula em que pintou o retalho que fará parte da colcha. Segundo ele, a sensação veio tanto da atividade em si, dos materiais utilizados e do ambiente calmo e introspectivo, proporcionado por uma música tranquila colocada por Flávia. Morador do Pelourinho, Walter conta que gosta de artes e esportes. Para ele, o projeto da Colcha de Retalhos é bem empolgante e traz novos conhecimentos relacionados à arte e às técnicas de pintura.

O educando Jorge Raimundo Trindade dos Santos, 63, sai do Rio Vermelho, onde mora, para assistir às aulas na escola em Nazaré. Faz de ônibus o trajeto de cerca de seis quilômetros. “Tenho muita vontade de saber, de aprender e, enquanto eu tiver saúde, vou estudar”, afirma. Jorge, na infância, não teve a oportunidade de continuar os estudos, porque precisou trabalhar. “Fui à escola até a 4ª série e tive que parar. Minha mãe era baiana de acarajé e a vida era muito difícil”, conta. Para ele, a escola é um lugar acolhedor, onde estuda, conhece pessoas e faz novas amizades. E sobre a colcha de retalhos se anima. “É toda colorida e coisa colorida é a coisa melhor do mundo pra gente”, fala, com alegria.

No final do ano, no encerramento do projeto, a colcha será a peça central, mostrando um trabalho de grande força e beleza, representando histórias que se assemelham em alguns aspectos, que se entrelaçam e ganham novos significados por meio da escola e da Educação.

FestEJA – O projeto FestEJA foi desenvolvido a partir dos aspectos vivenciados nas turmas do noturno. “Trata-se de um público mais maduro, que trabalha e se interessa por qualificação profissional”, afirma a vice-gestora Patrícia Montes. Assim, a iniciativa visa estimular o empreendedorismo através de oficinas, palestras e cursos, como de manutenção de tablet e smartphone. Além disso, possibilita a vivência em diversas áreas do currículo escolar e busca sempre desenvolver nos educandos novas habilidades e competências. Os trabalhos são realizados durante todo o ano e se encerram com um evento especial.

Texto: Josiane Schulz/Ascom/Smed

Fotos: Otávio Santos/Ascom/Smed