Revolta dos Malês: Um dos mais importantes movimentos pela liberdade faz 186 anos

27 de jan de 2021 - Jornalismo

 

Há 186 anos, a madrugada do dia 25 de janeiro de 1835 em Salvador foi bastante turbulenta. Africanos escravizados tinham se articulado para naquela manhã de domingo dar início a um movimento pela liberdade. Era a Revolta dos Malês, considerada a mais famosa e impactante mobilização coletiva de trabalhadores africanos. O movimento, que envolvia cerca de 600 escravizados e libertos, havia sido denunciado e foi surpreendido pela polícia soteropolitana antes de eclodir. Mesmo assim, o levante ocorreu e se espalhou pela cidade, numa movimentação de resistência.

Conforme relata o historiador e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), João José Reis, no livro Ganhadores*, “escravos e libertos muçulmanos filiados à nação nagô, os chamados malês, muitos deles parceiros de trabalho, planejaram, mobilizaram e fizeram em Salvador a mais espetacular rebelião escrava urbana no Brasil. Ao lado deles lutaram nagôs não islamizados e alguns muçulmanos de outras nações. Significados religiosos, étnicos e de classe convergiram para tornar possível o levante.”

Com mortos e feridos dos dois lados, a revolta foi duramente reprimida. O levante, que teve início na ladeira da Praça, estendeu-se por vários pontos da cidade, e a última batalha foi em Água de Meninos. Todos os detalhes dessa história podem ser encontrados em A Revolta dos Malês de 1935 (clique aqui) – texto elaborado pelo historiador José Reis para os cadernos da Pasta de Textos da Professora e do Professor para o Ensino de História da África e Cultura Afro-brasileira da Rede Municipal de Salvador.

Além do material ao professor, o fato histórico também faz parte do currículo e de atividades extra curriculares das unidades de ensino municipais. No material pedagógico Nossa Rede, o levante é trabalhado no caderno de Ciências Humanas e da Natureza do 4º ano (clique aqui). “Levamos para a sala de aula o estudo da Revolta dos Malês tanto por sua importância na História da Bahia e do Brasil, quanto na desconstrução dos estereótipos criados em torno dos africanos escravizados”, diz Eliane Boa Morte, coordenadora do Núcleo de Políticas Educacionais das Relações Étnico-Raciais (Nuper) da Secretaria Municipal da Educação (Smed).

Eliane explica que há uma percepção equivocada sobre os africanos que foram trazido para o Brasil na condição de escravos. “Sempre houve a predominância de uma visão do negro ligado à agricultura, às lavouras, de que eram pessoas de trabalho unicamente braçal e que não sabiam ler, nem escrever. Também receberam de forma passiva a condição que lhes foi imposta pelos brancos. Isso não é verdade. E a Revolta dos Malês mostra uma outra perspectiva, uma outra realidade. Assim como outros movimentos organizados que ocorreram nos centros urbanos”, afirma.

Ela destaca que o levante envolveu negros escravizados de ganho, que trabalhavam com comércio e serviços. “Os malês eram muçulmanos e sabiam ler e escrever em árabe”, frisa. Ainda de acordo com o historiador João José Reis, “cerca de 51% dos réus escravizados e libertos então indiciados (pela Revolta dos Malês) eram trabalhadores de rua, principalmente carregadores de cadeira e fardos, e vendedores ambulantes. Outros 17% eram oficiais mecânicos.”

Levar essa discussão à sala de aula traz novos elementos da história, aprofunda o conhecimento. “Assim, nossos alunos e alunas têm uma visão mais ampla da escravidão, que vitimou negros de várias etnias, de diferentes conhecimentos, de cultura e religiões distintas. A própria construção da revolta leva os estudantes e as estudantes a verem a capacidade de organização, de discussão, de articulação, de administração daqueles africanos, que visavam construir uma sociedade liberta do jugo da escravidão”, destaca Eliane.

Outro aspecto abordado a partir dos estudos da Revolta dos Malês é a localização geográfica desses eventos, locais existentes até hoje e que foram palco da história, como a Ladeira da Praça, a Câmara Municipal, o Pelourinho, o Campo da Pólvora, entre outros. “A história está distante no tempo, mas não no espaço geográfico. Claro que esse é um elemento dentre tantos outros que a gente precisa discutir quando falamos da educação das relações étnico-raciais, do legado africano, da estruturação da sociedade brasileira, da sociedade soteropolitana. Temos que pensar nos negros e negras como pessoas que construíram a cidade de Salvador com capacidade, inteligência e conhecimento. Nós, soteropolitanos, temos a cultura africana como suporte da nossa própria existência”, conclui.

*Ganhadores: A greve negra de 1857 na Bahia, de João José Reis. 

Eliane Boa Morte, coordenadora do Nuper